domingo, 19 de dezembro de 2010

Um Puta Natal!

foto de ellen von unwerth

Era fantasia de Papai Noel. Quando cheguei, já me disseram logo que queriam um homem.
- Amigo, olha o meu tamanho! Que diferença vai fazer?
- Sei não, moça. A gente quer homem mesmo.
Fiquei possuída de raiva. Esse machismo declarado me irrita de tal forma que sinto vontade de cortar o pau do filho da puta, só pra ele sentir como é bom ser mulher.
Sorrio: - Obrigada, querido.

Saí pela porta poderosa, como se eu esfregasse na cara deles: “estão perdendo uma puta profissional”. Sem ambiguidades, por favor. Poupem-me de piadinhas numa hora dessas.
Andei a tarde toda por aqueles corredores insuportáveis do shopping. Você já conseguiu imaginar um lugar mais terrível do que este no Natal? Já? Duvido!
Eu não sei dizer com exatidão, mas devo ter distribuído uns dez currículos. E tudo o que eu queria era uma droguinha de emprego de final de ano pra poder comprar um presente pro Carlão. Além do natal, a gente ia fazer um ano de namoro. O Carlão já tinha dado bandeira de que me compraria algo, e eu tava mais dura que pau de tarado.
Andei tanto que enchi os pés de bolhas. Mas só de pirraça (e eu também não tinha lá grandes alternativas), voltei aos machistas. Quando entrei, já percebi as risadinhas de canto.
- Esqueceu algo, moça?
- Não. Olha só... eu pensei e acho que daria muito certo esse emprego aí pra mim.
- A gente acha que não.
- Querem pagar pra ver?
- Pagar não. De graça, até podemos.
- Então passa a fantasia pra cá.
Vesti com facilidade. Eu também não estava assim estrondosamente gorda, mas deu pra parecer um maldito Papai Noel identicamente.
- ho ho ho!
- Ih! Voz muito fina... não dá, não.
- Hoo Hoo Hoo!
- humm...
- HOO! HO HOOO!
- Melhorou bem. Pega no saco aqui, santa claus.
Caralho, ter que aguentar um homem quando se depende dele é a coisa mais humilhante e decadente pela qual uma mulher pode passar. Muito pior do que manchar a calça de sangue numa festa cheia de homens bonitos ou cair um tombo em frente ao cara que te esnobou a vida toda.
- E aí, rola? Tô precisando da grana.
- Não parece... tá bem alimentada, tá bem vestida...
- Restaurante de 1 real e roupa emprestada. E se não comprar um presente, o Carlão vai me largar.
- Ah, aí vai ser difícil mesmo você arrumar outro, hein, colega. Bem difícil!
Pensei em matá-lo, mas eu perderia o emprego para o qual ainda precisava ser contratada.
- Pois é – uma risadinha marota mudando de assunto: - E então?
- Rola sim, princesa. Mas vai ter que usar o 'Ho Ho' grosso. Bem grosso.

Eu tava, finalmente, empregada. E disfarçada. Inventei uma históroa qualquer de emprego por Carlão e tudo certo.
Mas no segundo dia de inferno, enquanto eu tolerava aquele shopping cheio de gente desocupada e aquele mundarel de crianças arruaceiras pendurando em mim e me roubando balas com seus gritinhos ensurdecedores, vejo Carlão passeando com uma loira magrela, peituda e de cabelo chapado. Não teve primeiro momento porque não pensei duas vezes: empurrei as crianças – me disseram depois que uma delas bateu a cabeça e até levou uns pontos – e saí correndo pra cima dos dois.
Ataquei primeiro a mocréia. E ela gritava: 'Tarado! Seu velho tarado!'. Carlão me segurou e quase me mandou um soco na cara, quando gritei e ele percebeu que aquele Noel era estranho. Ou nada estranho, aliás. Joguei todas as balas na cara dele, xinguei palavrões que eu nem sabia que conhecia e saí correndo descabelada, de roupa rasgada, com a barba descolando e toda suada pelo shopping.
Crianças me encaravam horrorizadas e alguns adultos riam.

Caralho de natal... e ainda vêm me desejar coisas boas!


Samantha Abreu

4 comentários:

Fanzine Episódio Cultural disse...

O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

Anami Brito disse...

Tanto desespero para conseguir um emprego para comprar um presente para o Carlão e no final das contas o sacana estava com outra.

Andreza disse...

Boba :B

Onde me escondo... disse...

Meu pai, faz tanto tempo que não venho aqui...!as ocupações diárias, minha internet que é uma M..., e tantas outras razões...mas vc continua com a mente estupidamente "criativa e perturbada" samis...rsss....isso que chamo de dom, sai cada coisa dessa cabecinha ai que até deus duvida!!!..rsss
ADOREI...o Carlão é um vagal mesmo!!!
bjuuuu