quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Desabafo no Divã



- Eu ando uma pilha, tá entendendo doutora? Não aguento mais ver criança na minha frente, quero distância de homem e estou me tornando um serial killer de mulheres. Essa coisinha de reclamar aqui, socorrer ali, trabalhar lá, ajudar cá, não dá mais pra mim. Quero amarrar uma bomba na cintura e explodir um shopping. Em pleno domingo. Conhece alguém?
- M...
- Nem pense em dizer nada. Eu tô pagando pra você só ouvir. E escute bem: eu vou cometer um crime, fique sabendo. Vou matar qualquer mulher que reclamar alguma coisa na minha orelha. E vou cortar o pinto daquele energúmeno a próxima vez que ele tentar me comer no meio na madrugada, com essa canseira que eu tô. Só não mato as crianças porque vão querer me linchar, é crime muito popular. Você não acha?
- Acho.
- Mas vou fugir e largar com uns conhecidos. Com a família não, pois tô arquitetando um plano diabólico contra a minha e a dele. Vou esfolá-los vivos. Amarrar no pára-choque e arrastar por quarteirões. Depois fazer igual aquele goleiro lá... sabe qual é? Dar pros cachorros comerem. Temos uns cachorros enormes lá no sítio que dão muito trabalho. Quilos de ração e caseiro só pra cuidar dos bichos. Percebe como tudo o que é pra ser vantagem na vida só serve pra dar trabalho? Eu é que não quero mais trabalho. Comprei um revolver. Meto uma bala na cara do primeiro que me der algum trabalho pra fazer. Bem no meio da cara. Não vai nem dar tempo de defesa. Depois fujo e alego insanidade. Será que dá certo?
- Insanidade? Acho que sim.
- Não pedi sua opinião. Tô falando comigo mesma. Aliás, fique à vontade para se retirar caso queira.
- É minha sala.
- Essa sala me irrita, você já devia ter percebido. Sempre que eu entro aqui tenho vontade de matar sua secretária. Ela me olha com aquela cara de paisagem e um sorriso idiota de quem me acha doida. Eu não sou doida. Você tem que dizer isso a ela. Da próxima vez, viro-lhe um tapa na frente de todos os outros pacientes imbecis que ficam esperando por você lá naquela sala.
- Não fala assim.
- Vai querer discutir? Quer ver uma coisa? Te esquartejo aqui mesmo.
- Não vai dar hoje.
- Ah, é? E pode me dizer por quê?
- Acabou sua hora, Matilde.
- Já, doutora? Posso pagar mais uma?
- Hoje não dá, tem outra pessoa marcada.
- Tá bom, volto na semana que vem.
- Beijo, querida.
- TchauTchau.


Samantha Abreu
foto de Ellen von Unwerth

7 comentários:

Rosangela disse...

Nossa, adorei!

Ricardo Wagner Alves Borges disse...

Karin surtando? Já pode pleitear vaga de roteirista para SEPARAÇÃO?! (aquela série protagonizada por Débora Bloch e Vladimir Brichta).

RW.

Anami Brito disse...

Muito bom!!!É apenas a vontade de desabafar...kkkk....

Fanzine Episódio Cultural disse...

O Fanzine Episódio Cultural é uma jornal bimestral (Machado-MG/Brasil) sem fins lucrativos distribuído gratuitamente em várias instituições culturais, entre elas: Casa das Rosas (SP/SP), Inst. Moreira Salles (Poços de Caldas-MG) e Cia Bella de Artes (Poços de Caldas-MG). De acordo com o editor e poeta mineiro Carlos Roberto de Souza (Agamenon Troyan), “o objetivo é enfocar assuntos relacionados à cultura, e oferecer um espaço gratuito para que escritores, poetas, atores, dramaturgos, artistas plásticos, músicos, jornalistas... possam divulgar suas expressões artísticas”.

Marcos Satoru Kawanami disse...

o time do Flamengo até que é bom, tem o Petcovich que é excelente, meio campo entrosado, firme dupla de zagueiros... só o goleiro é que mata!

Nathy disse...

Adorei! haha. Queria ser assim tbm, destrambelhar a falar tudo que vem na mente...rs

Pimenta disse...

Hei, vamos gravar isso?Ia ser mara!
bjo