quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um Puta Natal!

foto de Ellen von Unwerth
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Era fantasia de Papai Noel. Quando cheguei, já me disseram, de cara, que queriam homem.

- Amigo, mas olha o meu tamanho! Que diferença vai fazer?
- Sei não, moça. A gente quer homem mesmo.
Fiquei possessa de raiva. Esse machismo declarado me irrita de tal forma que sinto vontade de cortar o pau do filho da puta, só pra ele sentir como é bom ser mulher.
- Obrigada, querido.

Saí pela porta poderosa, como se eu esfregasse na cara deles: “estão perdendo uma puta profissional”. Sem a ambigüidade da frase, por favor. Poupem-me de piadinhas numa hora dessas.

Andei a tarde toda por aqueles corredores insuportáveis do shopping. Já pensou em lugar mais terrível que este no Natal? Já? Duvido!
Não sei dizer com exatidão, mas devo ter distribuído uns dez currículos. E tudo o que eu queria era uma droguinha de emprego de final de ano pra poder comprar um presente pro Carlão. A gente ia fazer um ano de namoro e o Carlão já tinha dado bandeira de que me compraria algo. E eu tava mais dura que pau de tarado.
Andei tanto que enchi os pés de bolhas. De pirraça, mas sem alternativa, voltei aos machistas. Quando entrei, já senti as risadinhas de canto.

- Esqueceu algo?
- Não, moço. Olha só... eu pensei e acho que daria muito certo esse emprego aí pra mim.
- A gente acha que não.
- Querem pagar pra ver?
- Pagar não. De graça, até vemos.
- Então passa a fantasia pra cá.

Vesti com certa facilidade, já que as roupas eram largas. Eu não estava assim estrondosamente gorda, mas deu pra parecer um Papai Noel identicamente.

- ho ho ho!
- Ih! Voz muito fina.
- Hoo Hoo Hoo!
- humm...
- HOO! HO HOOO!
- Melhorou bem. Pega no saco aqui, santa claus.

Caralho, ter que agüentar piadinha de homem quando se depende deles é a coisa mais humilhante e decadente pela qual uma mulher pode passar. Pior até do que manchar a calça branca de sangue numa festa chique e cheia de homens bonitos.

- E daí? Rola? Tô precisando da grana.
- Não parece... tá bem alimentada, tá bem vestida...
- É restaurante de 1 real e roupa emprestada. E, além disso, se não comprar um presente, Carlão vai me largar.
- Ah, aí vai ser difícil você arrumar outro, hein, colega. Bem difícil!

Pensei em matá-lo, mas eu perderia o emprego para o qual ainda precisava ser contratada.

- Pois é – com uma risadinha marota, conformada e mudando de assunto: - E então?
- Rola sim, princesa. Mas vai ter que usar o 'Ho Ho' grosso. Bem grosso.
- Deixa comigo!

Eu tava, finalmente, empregada. E disfarçada. Disse pro Carlão que tinha arrumado emprego de vigia nas câmeras de segurança de uma empresa, e ia trabalhar todos os dias até tarde da noite.

No segundo dia de labuta, enquanto tolerava crianças arruaceiras pendurando em mim e me roubando balas, vejo Carlão passeando com uma loira magrela, peituda e de cabelo chapado. Não pensei duas vezes: empurrei as crianças – me disseram depois que uma delas bateu a cabeça e até levou uns pontinhos – e saí correndo pra cima dos dois.
Ataquei primeiro a mocréia. E ela gritava: 'Tarado! Seu velho tarado!'. Carlão me segurou e quase me mandou um soco na cara, quando gritei – sem fazer a voz do 'Ho Ho' – e ele viu que tinha algo estranho. Joguei todas as balas na cara dele, xinguei palavrões não repetíveis e saí correndo descabelada, com a barba descolando e toda suada, pelo shopping.

Crianças me encaravam horrorizadas e adultos riam.
Caralho de natal! E ainda vêm me desejar coisas boas!


Samantha Abreu

15 comentários:

Paulo Bono disse...

isso é um puta roteiro!
com certeza!
E acho que original.
rendia, no mínimo, um especial de de tv.
tu é uma escritora, Samantha, das boas.
abração

Tarcísio Buenas. disse...

descontrole total!

até a próxima.

bj

Peterson disse...

Hahaha, ótemo, ótemo!
Mas, vai que a loira peituda era irmã, cunhada ou coisa assim? rs Já ouvi falar de histórias similares que a ciumenta bateu na mãe do gajo kkkk
Muito bom!

Paula Calixto disse...

Na boa? Eu tinha era ficado com o presente e dado, além de beijos, dado de presente pra ele. E só. [risos]

A única coisa que me faria fazer um negocio desses era passar fome. E olhe que pedir esmola ainda é menos humilhante, pra mim! :p

Beijos.

ju e lu [e vice-versa] disse...

Sensacional!
Um belo curta pra especial de Natal!

Seria bom enforcar o Carlão com a corda do saco...
...mas ele não merece! rs

jú mancin

Grazzi em ContRo disse...

hihihi Me identifico demais com sua veia cômica, quando te leio!
Bjos!

Pro Carlão, um abração..por trás..hauhauhau

Fabrício Fortes disse...

ora ora.. que presente da natal heim..
vida de papai noel não é fácil!!
ótima!

Bruna Mitrano disse...

Adorei isso.

L. Rafael Nolli disse...

Isso sim é um papai noel descontrolado! Imagina as pobres crianças traumatizadas pra sempre diante de tal visão!

Fabrício Brandão disse...

Eis um espírito neurótico do Natal! Bota desvario nisso!

Beijos, querida, e um excelente 2009 com mais e mais verbos!

Sunflower disse...

puta merda, sensacional.

Rackel disse...

E depois dos pontinhos na testa da criança, duvido q pagaram os dias trabalhados!
=(

minicontosperversos disse...

genial. mas uma vez, vestiu a roupa como ninguém!!!!

quem sabe não tropeçamos em vc no shopping? (leia o nosso de natal)

prazer, de novo!

Fernando R. Silva disse...

Olá, Samanthinha!

Cômico, mais uma vez. Agora, tá vendo? Se deixasseo negócio do emprego pra lá, ainda estaria bem feliz com Carlão... :)

E achei que "mais duro que pau de tarado" fosse uma expressão que só eu usasse. Hehehehe.

somebody disse...

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