segunda-feira, 7 de abril de 2008

Tempero Pronto

foto: Salma Hayek por Ellen von Unwerth


.....Sempre fui alvo de pessoas que falam coisas sem pensar. Fazem isso sempre com as melhores das mais diabólicas intenções, tentando não me magoar. Pois bem, falar é fácil e as pessoas não têm idéia das atrocidades que cometem quando opinam e aconselham sobre a vida alheia. Ele, principalmente, acha que sou sensível demais e até um pouco birrenta, mas não sei não, à essa altura, com todo mundo achando que as mulheres devem ser modelos de sobriedade e autocontrole, eu sou mesmo uma santa.
.....Desde o começo de namoro, ele ficou a par de toda a minha história de vida e problemas traumatizantes da infância. Agora vem me dizer que preciso ser diferente. Meu Deus, com 43 anos não se muda de personalidade e de costumes! Ele trouxe até a irmã para tentar ajudar com meu ‘problema psicológico’. Isso tudo só porque tenho o hábito de temperar a comida com tempero pronto, me recuso a usar cebolas. Ele e a família, todos psicólogos de nascença, acreditam na superação desse trauma. Quando vejo a irmã dele entrar, meu corpo treme incontrolavelmente. Em minha cabeça vozes vociferam os mais profanos palavrões, inclusive, alguns que eu nem sei o que significam, mas de maneira elegantemente irônica viro para ela e solto: - De novo, Luíza? Já disse ao Rubem para não te incomodar com isso! Ela faz a maior de todas as tentativas para se aproximar e explicar que preciso de ajuda não só pelo fato de odiar cebolas, mas pelo significado disso para mim.
.....Então tá, vou explicar: quando criança, eu tinha péssimos hábitos alimentares, aliás, como a maioria das crianças. Meu pai me ameaçava com um cinto, me fazendo comer toda a cebola da salada. Mais tarde, na adolescência, minha mãe foi morta por assaltantes quando saía do supermercado e tinha nas mãos um pacote de cebolas. Desde então, as cebolas vêm me acompanhando pelos piores momentos da vida. Por isso, Rubem e toda a sua família acham que guardo uma arquitetura de traumas devido aos episódios com as cebolas.
.....Enquanto Luíza derrama toda sua explicação filosófica para tentar me salvar da tal perdição enlouquecedora, eu pratico um dos meus exercícios favoritos: converso comigo mesma. Faço planos para o fim de semana e penso nas contas à pagar. Às vezes, olho para ela e vejo sua boca mexendo sem parar, como se estivesse dentro de uma televisão no mudo. Não escuto nada.
.....O que Rubem e sua corja não entendem é que não estou nem aí para as tais cebolas. Não uso por pura vaidade. E, de fato, quando ele insiste, me deixa profundamente irritada. Mais importante do que a aversão-trauma às cebolas, e que eles não percebem, é que tenho apenas um defeito quase genético: sou patologicamente incapaz de agüentar merda de quem quer que seja.
.....Nesse momento estou no limite da minha tolerância enquanto Luiza continua a falar descontroladamente. Se ela imaginasse o grau de ebulição do vulcão que existe dentro de mim, pararia imediatamente. Assumo um ar sombrio e tempestuoso que ocupa todo o meu rosto como se eu tivesse acabado de descobrir asas de barata do meu sanduíche. Volto para ela com os olhos faiscando e riscando o ar com uma só expressão: fo-ra da-qui!
.....- Luiza – interrompo, deixando-a boquiaberta – já li quase todos esses livros: a grande busca pelo significado da vida, para qual história minha família me encaminhou. Sei de tudo isso e não ignoro totalmente, apesar de algumas atitudes recentes demonstrarem o contrário. Agora peço desculpas, mas estou de saída e é urgente.
.....Sem maiores explicações, saio da sala e ela se debate no sofá. Penso: agora sim me despedi da minha derradeira imagem de pessoa elegante e equilibrada. Sou uma destruidora. Anarquista. Hooligan. Selvagem. Bruxa. Na realidade uma terrorista, o que por dentro me traz uma gostosa sensação de contentamento. Sei o que irão avaliar agora. Vão me depreciar com coisas do tipo: não sou confiável, sou imprevisível, propensa a acessos espontâneos de ironia, irresponsável, rabugenta. Vai ser o discurso habitual para acabar comigo. E, pra falar a verdade, senti mesmo vontade de avançar em sua garganta até o sufocamento. Depois, iria como sombra de Rubem ao funeral, surpreendendo a todos atrás do meu óculos Calvin Klein, com um erguer tumular de sobrancelhas significando ‘isso foi só um aviso’. Mas só o fato de me ver livre de sua dissertação psicanalítica das cebolas já enche de sol o meu coração e, em estado de graça, vou dançando e saltitando pelas lajotas da garagem até onde deixo meu carro. Depois disso, logo pela manhã, estou ansiosa por um cansativo dia de trabalho.
.....Compreendo inteiramente que Rubem e sua família sintam as mais sofridas emoções humanas, mas há limites: meus intestinos simplesmente não conseguem mais suportar. O que o que realmente quero fazer é socar os malditos, arrancar os cabelos, berrar muito e arranhar a cara deles até que ficarem esfolados vivos. Talvez assim, me digam por que estão fazendo isso comigo e com as drogas das cebolas! Trabalho o dia todo pensando nesses atos insanos de esquartejamento. À noite, chego em casa a tempo de cozinhar o jantar e, mais uma vez, me nego a usar cebolas.
.....Rubem aparece à porta e sinto no ar sua respiração. Quando começa a abrir a boca para me dirigir a palavra, viro em sua direção com uma enorme faca apontando-lhe o corte e berro:
.....- Não vou usar cebolas porque elas me fazem chorar! E che-ga!
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Samantha Abreu
*conto baseado no livro 'Viciada em feng Shui', de Brian Gallagher
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25 comentários:

Paulo Bono disse...

na boa, manda alguns argumentos pro almodovar.
abração

Fabricio Fortes disse...

rsrsrs
concordo com o bono

helen disse...

AHAHAHAHAHAA
na verdade, eu teria medo mesmo da faca, e do seu estado quando fica nervosa, mas tem que ter paciência mesmo né com essa familia! São coisas da vida rs
beeijos, adoro esse blog!

Fabio Martins (Dú) disse...

Texto extremamente detalhista imaginei a cozinha a senhora não uso cebolas na pia fazendo o almoço, a cara de louca da irmã do Rubem, enfim me prendeu de uma forma absurda aos detalhes... muito bom...

Adoro o blogger...mesmo

bjão.

enten katsudatsu disse...

O trem tá bom aqui sô. Itamar Assumpção, Frank Zappa no talo hoje.

Bom conto, o fim é de chorar. risos.

Beijos.


Cássio Amaral.

Salve Jorge disse...

E como os tubérculos
Sob a espessura da terra
As camadas da cebola
E seus ácidos
Reagem
E regem
Regam
Riachos de profusão
Como martinis nas azeitonas do teu olhar
Para que Rubens beba
A família aceite
Pode por um pouco de azeite?
Tempero pronto é uma merda de tão prático
E fica pegajoso nos dedos
Mas não deixa aquele cheiro
Que dura o dia inteiro
Como os medos
Que mesmo nulos
Formulam esses ecos
Urrados
Na ponta da faca
Franca
Corte-o e arranca
Dele o tempero
Ponha na comida
E dê-se um banquete de tranquilidade...

Giza disse...

Da maneira que escreve, com detalhes que fazem a imaginação ate tentar voar, e querer saber mais,,,,

Adorei seu blog, parabens!!!
Inté

Paulo D'Auria disse...

A-do-rei, Sá!
Arrasou!
Rodando a baiana e descascando a cebola!

Beijos

Grazzi em ContRo disse...

kkkkk Massa!
Me lembrei da minha vó de avental sacudindo o rolo de macarrão na cara do meu avô e berrando: "Cê não tinha nada que chegar mais cedo hj, saiii daqui!". (cena-caricatura e acontecida de fato)

Juliana.Campos disse...

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!

descontrolar-se faz bem a saúde de qualquer mulher, faz bem a alma =D

Ana Cláudia Zumpano disse...

Samantha,
ja estava preocupada menina, entrava aqui todo dia esperando o próximo!!!
hahahaha mais uma vez, vc foi fantástica! "Às vezes, olho para ela e vejo sua boca mexendo sem parar, como se estivesse dentro de uma televisão no mudo. Não escuto nada".
Eu adoro colocar certas pessoas no mute também, é ótimo!!!
Mas uma coisa eu digo, eu não vivo sem cebolas!!! adoro tempero, alho cebola... só que coloco ele pra picar a cebola... hahahahaha
bjos ;*

Fabrício Brandão disse...

Olá, Samantha!

Adorei a sua pegada, seu jeito de tratar de certos recortes que povoam nossa realidade urbanóide. Realmente, o universo feminino é aguçado mesmo e sabe fornecer inquietudes válidas.

Beijos!!

Bianca Feijó disse...

Oi Sa!

Não sei se estou "descontrolada" (rsrs) mas acho que já esse teu texto, e aqui mesmo!

De qualquer forma, ri duplamente!
Mulheres Sob Descontrole é sempre tudo de bom.

B.E.I.J.O.S

Leila Lopes disse...

Muito legal, adorei, Samantha. Também me lembra algo muito familiar em relação à peixe (espinhas na garganta, rs.

Espontaneidade de sobra por aqui.
Beijão.

Dani Morreale disse...

VAI SER FODA ASSIM PRA LÁ DE MARTE!!!!!

v.p disse...

Nem sei por que namora esse cara. Possivelmente porque adora reviver traumas. Um pontapé na bunda do amado resolve todos os problemas de uma vez só. Depois, um demorado passeio por uma plantação de cebola cai bem, só para relaxar...

Rackel disse...

Malditas cebolas!

Juro q vi seu texto diante de mim, como se fosse um curta-metragem. Suas imagens são muito reais... um dia eu quero escrever assim como vc!
rs

bj

Mary disse...

Demais!!!
Além dessa razão aí, não uso cebolas pra não ficar com aquele cheiro insuportável e nada sexy nas mãos!!!
Amei tudinho nesse texto!
Tu é craque, mulher...
Beijinhos pra ti e ótimo início de semana.
;)

Leila Saads disse...

Pra não ter de enfrentar o trauma das cebolas, simples, use alho ;)

Divertidíssimo o texto!

Beijos!

Izabel Xarru disse...

hermenêutica, propedêutica, cassêutica.... tanta razão e o afeto lá, no comecinho.....
sá, acho que fiquei com problemas com cebolas depois do seu texto.
catso!
duro.
(ainda bem).
vou ter que chamar a cicciolina pra me salvar da fúria esquartejante.....
das temíveis....cebolas de família:_P

Izabel Xarru disse...

hermenêutica, propedêutica, cassêutica.... tanta razão e o afeto lá, no comecinho.....
sá, acho que fiquei com problemas com cebolas depois do seu texto.
catso!
duro.
(ainda bem).
vou ter que chamar a cicciolina pra me salvar da fúria esquartejante.....
das temíveis....cebolas de família:_P

FERNANDO disse...

Olá, Samantha!

estive um tempo off, cuidando de coisas pessoais. Mas estou de volta, e, puxa, como tem coisa por aqui, hein?

Começando por Tempero pronto, que acabei de ler. É incrível, mas você consegue sempre acertar a mão. Quando descreveu a cunhada psicóloga falando e falando, enquanto a personagem viajava em si própria, consegui ver a cena. Muito bom!

Devo dizer que no início achei que era mais uma pirraça, com certa razão, pra não se submeter aos caprichos dele. Mas, como na li o tal livro o qual o conto foi baseado, traço um paralelo de que esta moça sempre foi tão forte - afinal, passou por uma infância comendo cebolas a força e a mãe faleceu cedo -, que ela mesma não consegue se ver chorando nem mesmo involuntariamente, por conta das cebolas. Ou que acabei de escrever pode ser uma grande idiotice. Mas o conto tá muito bom! Parabéns, mais uma vez!

Beijocas, Samantha!

P.S.: será que posso te pedir uma ajuda? Gosto da simplicidade do seu leiaute e queria muito um assim, de duas colunas sendo que a principal é bem larga. Ajuda, vai, por favor? Você fica online quando? :)

日月神教-任我行 disse...

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日月神教-向左使 disse...

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