
Eu sempre tive esse pesinho sobrando em alguns dígitos embora nunca, em nenhum momento, tenha me acostumado ou me orgulhado deles. Aliás Neide, preciso te dizer nesse rompante de indignação que a culpa de eu não ter conseguido até hoje – depois de anos! – me livrar deles, é dessa cultura das academias de ginástica permitirem que os personal trainers ajam como médicos sem terem feito nenhum tipo de juramento hipocrático.
Então, por conta disso, eu continuo aqui, com esses dígitos me assombrando. E algum maldito, em algum momento de ócio criativo, disse à sociedade que as cores usadas por uma pessoa durante a virada de um ano para o outro simbolizariam os desejos que ela tem para o ano seguinte. Até aí tudo bem, pouco me importa que cores usarão, mas minha família, que me aporrinha pela obrigatoriedade da presença nessa festa todo ano, inventou de viajar para o litoral nesse. Bem nesse. E eu não fui, pois estou gorda, sem dinheiro e sem folga no trabalho. Então, feito um cachorro chutado para fora da igreja, me enturmei com a primeira meia dúzia de pessoas que me deu bola. Fui convidada pra uma dessas festas de clubes, onde as pessoas só pensam em beber e beijar e beijar e beber e beijar. Só isso, pelo menos antes de saírem de lá para outros lugares. Claro, eu já sabia que ia ser assim, mas o que você faria em meu lugar, hein, Neide?
Só que eu não tinha nenhum vestido branco. Sim, todos iriam de branco e eu também deveria ir. Não seria eu, a nova da turma, a arrumar confusão por uma bobagem destas. Sabe, Neide, na verdade a cor que eu queria mesmo era uma mistura nada discreta de vermelho, laranja e amarelo. Era bem isso o que eu queria pra esse ano novo. Mas fui eu atrás de um vestido branco. Ninguém no universo pensa que gordinhas adorariam usar branco! Todos os vestidos brancos são curtos e justos, o que me deixaria extremamente parecida com um rolo de papel higiênico. Sabendo disso, comprei assim mesmo. Não tive opção. E não parei pra pensar, Neide.
Festa daqui, festa dali, todo mundo bêbado, se pegando... de repente, escuto uma gritaria e um tumulto preocupante. Estávamos sendo assaltados.
Sim, na festa de réveillon. Sem dó nem piedade. E os caras eram violentos, mal educados. Estavam muito loucos, Neide. Ainda por cima, uma patricinha débil mental olha pra mim e diz: ‘- Gente! Mas esses rapazes estão bêbados!’. Eu quase joguei minha taça na cara dela.
Abaixamos todos, deitados naquele chão imundo, molhado. Fomos roubados, humilhados, só vendo! Um dos assaltantes ainda me olhou e apontou a arma para minhas pernas, fazendo uma cara bem esquisita. O maldito vestido tinha virado blusa nessa hora. E, acredite, minha calcinha media do busto à metade da coxa.
Pois bem, sufoco terminado, chega a polícia, repórteres de jornais e televisão. Neide, te dou toda a minha coleção da Boa Forma se você adivinhar quem, no meio daquela bagunça, eles enxergaram e vieram, já com a câmera ligada e microfone em postos. Sim. Eu, de vestido branco, sujo, molhado, transparente, curto, mostrando minha calcinha-cinta bege broxante, maquiagem pós choro, descabelada e gorda. Dei entrevistas, tirei fotos, fui filmada e interrogada. Além da TV, fiquei uma semana com a cara e o corpo estampados nas páginas policiais dos jornais. Naquela situação, Neide.
Recebi todos os tipos de condolências imagináveis, mas em nenhuma delas as pessoas deixaram de comentar o meu estado. As mais íntimas faziam piadinhas sobre minha calcinha, meu vestidinho, etc. Engraçadinhos perguntaram se aquela festa era um bacanal pra eu estar vestida naquele traje indecente.
É, Neide, uma bela ironia. Paz eu desejo pra putaquepariu esse escroto que disse que a gente deve vestir branco. E pra todos os modistas, estilistas e costureiros que pensam que branco – e, consequentemente, paz – é coisa de gente magra.
Ano que vem, Neide, com família ou sem família, passo pelada. Peladona mesmo. Cor da pele. Acho melhor ser gorda louca do que ser gorda puta.
Então, por conta disso, eu continuo aqui, com esses dígitos me assombrando. E algum maldito, em algum momento de ócio criativo, disse à sociedade que as cores usadas por uma pessoa durante a virada de um ano para o outro simbolizariam os desejos que ela tem para o ano seguinte. Até aí tudo bem, pouco me importa que cores usarão, mas minha família, que me aporrinha pela obrigatoriedade da presença nessa festa todo ano, inventou de viajar para o litoral nesse. Bem nesse. E eu não fui, pois estou gorda, sem dinheiro e sem folga no trabalho. Então, feito um cachorro chutado para fora da igreja, me enturmei com a primeira meia dúzia de pessoas que me deu bola. Fui convidada pra uma dessas festas de clubes, onde as pessoas só pensam em beber e beijar e beijar e beber e beijar. Só isso, pelo menos antes de saírem de lá para outros lugares. Claro, eu já sabia que ia ser assim, mas o que você faria em meu lugar, hein, Neide?
Só que eu não tinha nenhum vestido branco. Sim, todos iriam de branco e eu também deveria ir. Não seria eu, a nova da turma, a arrumar confusão por uma bobagem destas. Sabe, Neide, na verdade a cor que eu queria mesmo era uma mistura nada discreta de vermelho, laranja e amarelo. Era bem isso o que eu queria pra esse ano novo. Mas fui eu atrás de um vestido branco. Ninguém no universo pensa que gordinhas adorariam usar branco! Todos os vestidos brancos são curtos e justos, o que me deixaria extremamente parecida com um rolo de papel higiênico. Sabendo disso, comprei assim mesmo. Não tive opção. E não parei pra pensar, Neide.
Festa daqui, festa dali, todo mundo bêbado, se pegando... de repente, escuto uma gritaria e um tumulto preocupante. Estávamos sendo assaltados.
Sim, na festa de réveillon. Sem dó nem piedade. E os caras eram violentos, mal educados. Estavam muito loucos, Neide. Ainda por cima, uma patricinha débil mental olha pra mim e diz: ‘- Gente! Mas esses rapazes estão bêbados!’. Eu quase joguei minha taça na cara dela.
Abaixamos todos, deitados naquele chão imundo, molhado. Fomos roubados, humilhados, só vendo! Um dos assaltantes ainda me olhou e apontou a arma para minhas pernas, fazendo uma cara bem esquisita. O maldito vestido tinha virado blusa nessa hora. E, acredite, minha calcinha media do busto à metade da coxa.
Pois bem, sufoco terminado, chega a polícia, repórteres de jornais e televisão. Neide, te dou toda a minha coleção da Boa Forma se você adivinhar quem, no meio daquela bagunça, eles enxergaram e vieram, já com a câmera ligada e microfone em postos. Sim. Eu, de vestido branco, sujo, molhado, transparente, curto, mostrando minha calcinha-cinta bege broxante, maquiagem pós choro, descabelada e gorda. Dei entrevistas, tirei fotos, fui filmada e interrogada. Além da TV, fiquei uma semana com a cara e o corpo estampados nas páginas policiais dos jornais. Naquela situação, Neide.
Recebi todos os tipos de condolências imagináveis, mas em nenhuma delas as pessoas deixaram de comentar o meu estado. As mais íntimas faziam piadinhas sobre minha calcinha, meu vestidinho, etc. Engraçadinhos perguntaram se aquela festa era um bacanal pra eu estar vestida naquele traje indecente.
É, Neide, uma bela ironia. Paz eu desejo pra putaquepariu esse escroto que disse que a gente deve vestir branco. E pra todos os modistas, estilistas e costureiros que pensam que branco – e, consequentemente, paz – é coisa de gente magra.
Ano que vem, Neide, com família ou sem família, passo pelada. Peladona mesmo. Cor da pele. Acho melhor ser gorda louca do que ser gorda puta.
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Samantha Abreu
foto de Ellen von Unwerth








