sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Movimento pelo Réveillon Incolor


Eu sempre tive esse pesinho sobrando em alguns dígitos embora nunca, em nenhum momento, tenha me acostumado ou me orgulhado deles. Aliás Neide, preciso te dizer nesse rompante de indignação que a culpa de eu não ter conseguido até hoje – depois de anos! – me livrar deles, é dessa cultura das academias de ginástica permitirem que os personal trainers ajam como médicos sem terem feito nenhum tipo de juramento hipocrático.

Então, por conta disso, eu continuo aqui, com esses dígitos me assombrando. E algum maldito, em algum momento de ócio criativo, disse à sociedade que as cores usadas por uma pessoa durante a virada de um ano para o outro simbolizariam os desejos que ela tem para o ano seguinte. Até aí tudo bem, pouco me importa que cores usarão, mas minha família, que me aporrinha pela obrigatoriedade da presença nessa festa todo ano, inventou de viajar para o litoral nesse. Bem nesse. E eu não fui, pois estou gorda, sem dinheiro e sem folga no trabalho. Então, feito um cachorro chutado para fora da igreja, me enturmei com a primeira meia dúzia de pessoas que me deu bola. Fui convidada pra uma dessas festas de clubes, onde as pessoas só pensam em beber e beijar e beijar e beber e beijar. Só isso, pelo menos antes de saírem de lá para outros lugares. Claro, eu já sabia que ia ser assim, mas o que você faria em meu lugar, hein, Neide?
Só que eu não tinha nenhum vestido branco. Sim, todos iriam de branco e eu também deveria ir. Não seria eu, a nova da turma, a arrumar confusão por uma bobagem destas. Sabe, Neide, na verdade a cor que eu queria mesmo era uma mistura nada discreta de vermelho, laranja e amarelo. Era bem isso o que eu queria pra esse ano novo. Mas fui eu atrás de um vestido branco. Ninguém no universo pensa que gordinhas adorariam usar branco! Todos os vestidos brancos são curtos e justos, o que me deixaria extremamente parecida com um rolo de papel higiênico. Sabendo disso, comprei assim mesmo. Não tive opção. E não parei pra pensar, Neide.

Festa daqui, festa dali, todo mundo bêbado, se pegando... de repente, escuto uma gritaria e um tumulto preocupante. Estávamos sendo assaltados.
Sim, na festa de réveillon. Sem dó nem piedade. E os caras eram violentos, mal educados. Estavam muito loucos, Neide. Ainda por cima, uma patricinha débil mental olha pra mim e diz: ‘- Gente! Mas esses rapazes estão bêbados!’. Eu quase joguei minha taça na cara dela.
Abaixamos todos, deitados naquele chão imundo, molhado. Fomos roubados, humilhados, só vendo! Um dos assaltantes ainda me olhou e apontou a arma para minhas pernas, fazendo uma cara bem esquisita. O maldito vestido tinha virado blusa nessa hora. E, acredite, minha calcinha media do busto à metade da coxa.

Pois bem, sufoco terminado, chega a polícia, repórteres de jornais e televisão. Neide, te dou toda a minha coleção da Boa Forma se você adivinhar quem, no meio daquela bagunça, eles enxergaram e vieram, já com a câmera ligada e microfone em postos. Sim. Eu, de vestido branco, sujo, molhado, transparente, curto, mostrando minha calcinha-cinta bege broxante, maquiagem pós choro, descabelada e gorda. Dei entrevistas, tirei fotos, fui filmada e interrogada. Além da TV, fiquei uma semana com a cara e o corpo estampados nas páginas policiais dos jornais. Naquela situação, Neide.
Recebi todos os tipos de condolências imagináveis, mas em nenhuma delas as pessoas deixaram de comentar o meu estado. As mais íntimas faziam piadinhas sobre minha calcinha, meu vestidinho, etc. Engraçadinhos perguntaram se aquela festa era um bacanal pra eu estar vestida naquele traje indecente.

É, Neide, uma bela ironia. Paz eu desejo pra putaquepariu esse escroto que disse que a gente deve vestir branco. E pra todos os modistas, estilistas e costureiros que pensam que branco – e, consequentemente, paz – é coisa de gente magra.

Ano que vem, Neide, com família ou sem família, passo pelada. Peladona mesmo. Cor da pele. Acho melhor ser gorda louca do que ser gorda puta.
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Samantha Abreu
foto de Ellen von Unwerth

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Pela Causa Indescritível



- Porra, Adelaide, mas por que cargas d’água você tinha que fazer aquilo?
- Ah, e eu ia fazer o quê? Sabe a quantos anos eu luto pra ter uma, pelo menos uminha, foto no jornal ou na tv?
- E não podia ser por um evento cultural, uma ação em prol da santa casa de misericórdia, misericórdia!?
- Ô Dalva, você sabe muito bem que isso não dá ibope algum. Quem é que ia me ver lá? Meia dúzia de cultzinhos bem informados? Pára!
- É, pensando por esse lado... agora a cidade toda e, talvez, até alguns lugares do país saberão da mulher de meia idade de arrancou a roupa pro Lula.
- É, ué.
- E ninguém vai desconfiar de nada, já que ele, de fato, tem uma aparência digna desse tipo de ataque sexual. Quase um Elvis Presley.
- Ah, não exagera. Eu fiquei o tempo todo de lingerie.
- Pois devia ter jogado a calcinha pra ele...
- Hum, você acha?
- Vem cá, Adelaide, você tá achando que sou idiota?
- Claro que não! Mas você me deu uma idéia.
- Não dei nada, não. E não quero nem que você diga que me conhece. Tô com vergonha.
- Credo, Dalva, não foi tão ruim assim. Até que foi bacana.
- Foi sim, foi bacana quando o repórter disse que você era maníaca. Mais bacana ainda foi quando falaram que você era uma mulher de meia idade, com o corpo já não tão no lugar.
- Eles não sabem de nada!
- E você sabe do quê?
- Eu vou te contar a verdade: eu fiz aquilo por protesto.
- Hahahahahaa! De quê?
- Humm... se você me ajudar, eu posso organizar duas explicações fantásticas.
- Já digo que não vai dar certo.
- O clima dessa cidade tá uma merda. Eu digo que o protesto foi pelo aquecimento global. Ninguém mais aguenta esse calor, por isso arranquei a roupa.
- Sei... tem outra alternativa?
- Tem também a comunidade carente, sem condições de comprar roupas decentes...
- Pára! Deixa esta pra lá. Nada vai adiantar muito. Mas faz o seguinte: se te perguntarem de novo, você diz a primeira, a história do aquecimento global. É ridícula, mas pegou melhor.
- Eu sabia que você ia me dar razão.
- Que você é louca eu já sabia, Adelaide, mas louca engajada é novidade pra mim.
- Ô menina! E já tô até pensando no próximo projeto!


Samantha Abreu
foto de ellen von unwerth

sábado, 19 de setembro de 2009

Por um eunuco inofensivo

foto de Ellen von unwerth

- Eu tenho uma proposta pra te fazer, Alzira.
Quando começavam uma frase assim, a outra já não sabia se estaria viva depois da pergunta.
Ficou em silêncio, esperando que ela esquecesse o assunto.
- Alzira, tenho uma proposta.
- Já entendi. Vamos falar disso outra hora?
- Mas você é bem cachorra. Quando você tem idéias, eu escuto, incentivo e até te ajudo.
- Mas eu não peço pra você roubar maquiagem nas Americanas, não peço pra você seduzir o guardador de carro, não peço pra você...
- Pára com isso. Se vai ficar jogando na cara...
- Fala logo o que é dessa vez.
- Você vai gostar. Vai gostar.
- Então diz, pois tô muuuuuito ansiosa pra saber.
- Vamos dividir um namorado?
- O quê? Do que você tá falando agora, meu Deus?
- Alzira, me escuta. Há quanto tempo você tá sem namorado? Há quanto tempo não tem um homem... há quanto tempo...
- Faz tempo. Bastante tempo. Temo por mal saber fazer de novo.
- Então, tá vendo? Antigamente, em muitos lugares do mundo, as mulheres viviam em haréns, usavam seus homens uma vez por mês e olhe lá, e ainda eram felizes com suas amigas. É como dizem: antes pouco do que nada.
- Sei. E eu e você seríamos as mulheres do harén de quem?
- Jura que não vai rir?
- Hahahahahaa.
- Do Armando.
- Hahahahahaa.
- Topa?
- Topo.
- Assim tão rápido?
- É que tenho convicta certeza de que ele não oferece perigo.
- Por que?
- O cara é gay, Consuelo!
- É mesmo? Isso é muito sério, Alzira! Você tem mania de falar essas coisas sem ter certeza.
- Eu tenho certeza. Confie em mim.
- Humm, vocês já...
- Não, ele não conseguiu. Disse que eu tinha muito pouco pêlo no corpo.
- Pouco pêlo? Ele gosta de mulher peluda?
- Não, ele gosta de homem peludo. Disse, com lágrima nos olhos, que tem tesão no Tony Ramos.
- Hahahahahaahahaaa.
- Mas se você ainda quiser, a gente pára de sofrer com depilação e ganha mais uma amiga. Topa?
- Uhull, topamos!



Samantha Abreu

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Liberais, libertárias, libertinas

foto de Ellen von Unwerth
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Ah, não. Ninguém mais vai ficar falando por aí que eu sou careta. Sou mulher que honra as lutas e conquistas das minhas companheiras do passado. Pois de pirraça, saímos, eu e a Ivonete, pra aprontar mesmo. A gente tava a fim de escancarar nossa fama de libertinas e libertárias. Quando chegamos num desses bares de troca-troca, ficamos logo empatadas na porta. A Ivonete me olha com aquela cara de tela expressionista e começa a esclarecer para os anais do nosso bacanal todo os seus impasses, condições e regras:
- Ô Silvia, eu não quero que ninguém meta a língua na minha orelha, porque eu morro de nojo.
- Ah, que chatice isso. Aqui, ninguém é de ninguém, Ivonete.
- Então tô fora. Na minha orelha, não.
- Tá, eu te ajudo escapar disso se você prometer que não vai me deixar sobrar. Cara, não tem nada pior do que sobrar em orgia. Tenho pavor de me imaginar lá, de canto, enquanto a cambada toda se diverte.
- Só que eu não vou te garantir a festa, não, minha filha. Nesse corpo aí eu não encosto. Quero orgia com homem.
- Pra quê a gente veio aqui, Ivonete, se você vai ficar cheia das condições? Pô, transar com homem não te faz liberal, libertina e libertária, né? Se liga!
- Mas eu não gosto de mulher, cacete!
- Mas mulheres liberais gostam de qualquer tipo de sexo, Ivonete. Pensa! A gente tá entrando aí atrás de luxúria e prazer sem compromisso. Foi para isso que nossas antepassadas queimaram os próprios sutiãs e sofreram preconceitos inimagináveis, minha filha! Você pode imaginar isso? PODE?
- É. Você tem razão. Se a gente já sofre tanto por ter fama de conservadoras. Isso é muita discriminação, né, Silvia?
- É, mas conservadora, aqui, é você, Ivonete!
- Eu não, sua donzela, quem nunca deu a bunda aqui? Eu ou você?
- Ah, bem a sua cara mesmo, usar esses argumentos morais. Eu vou entrar nessa droga de lugar e dar até o buraco do nariz, Ivonete. Você vem ou não vem?
- Silvia, mas, sabe, tô grilada com uma coisa. E se acontece uma emergência lá dentro? Você imagina uma ambulância te buscando aqui? O que você vai dizer na sua casa, hein?
- Ai, nem me fale uma coisa dessas! Já pensou? Se eu tô de bananeira e quebro a cabeça?
- Ssshhhhhiiiii.
- Pô, mas ser careta não dá mais, né, Ivonete?
- É... tá ficando feio pra gente, todo mundo comentando.
- ...
- ...
- Já Sei! Acompanha aqui.
- Ahm!
- Todo mundo comenta nossa caretice porque todo mundo fala que somos caretas, não é?!
- Éééémmm.
- E se falarem que somos duas porras-locas, muito doidas e depravadas?
- Mas...
- A gente mente, Ivonete!
- U-hu! E mentir é coisa muito doida, Silvia! Muuuuito doida! Não é qualquer um que consegue isso, não! Tem que ter muita coragem, muito pino solto, tá entendendo?!
- Yeah! Então tá combinado. A gente diz que nossa suruba foi antológica!
- Vamos espalhar! Nossa vida vai mudar, Silvia!
- Vamos sair da convenção! Vamos pra revolução, Ivonete!
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Samantha Abreu

sexta-feira, 24 de abril de 2009

teorias (des) significadas



Eu e a Karen batíamos o maior papo furado sobre o amor, a vida, sobre a liberdade, sobre minha intolerância com relacionamentos e o sonho que ela alimenta de ser uma noiva vestida de branco. Era um papo assim, despretensioso, mas que expunha toda a nossa (in)definição sobre o que queremos. Tá, mais minha do que dela. Mas que fique claro: a indefinição não está só no significado, está, principalmente, no significante.
É o seguinte: eu não sei dizer o que quero. Quero liberdade, mas, ao mesmo tempo, não quero estar à toa na vida pra ver a banda passar contando coisa de amor dos outros. Eu quero todo o amor que me aparecer, em todas as suas representações, mas não dividiria meu homem com outra, nem me dividiria entre eles, por exemplo. Por isso, às vezes, parece que é liberdade sem ser liberdade. Fico confusa, imaginem como ficou a Karen.
Ela logo soltou:
- Ah, mas você não tem vontade de ter alguém pra sempre, amar uma pessoa e viver com ela?
- Sim, mas não é isso. É que eu quero isso e os outros...
- Amor liberal?
- Não, um de cada vez.
- Mas então não é pra sempre!
- É, não, não é.
- Então explica.
- É e não é. Assim: quero viver com alguém, mas quero que termine logo que acabe. Não gostaria de saturar algo, entende?
- E daí viver outro?
- Isso!
- Isso é legal. Bem legal, aliás.
- Eu prefiro pensar que quando estamos com alguém, existe troca de amor: eu dou o meu pra ele, e ele dá o dele pra mim. Tem lógica, não tem?
- Parece que sim.
- É, mas quando ele decide dar o amor pra outra, não vejo a mesma lógica em exigir que ele continue me dando o que dava e oferecendo o meu, se ele já vai ter o da outra.
- Ahm... estranho.
- Então, nesse ponto eu acho que quando já se viveu tudo o que tinha pra viver de uma história, é porque tá na hora de viver outra.
- Simples assim?
- É! Por isso que a gente sofre quando acaba, por ficarmos insistindo que a pessoa não leve o amor dela com ela.
- Ahm...
- Sem falar que eu sofro demais na dúvida. Preciso saber. Então, não consigo deixar que as coisas passem por mim sem ter a experiência delas, sabe?
- Percebo.
- Sei lá se é assim também. Sei lá, sei lá. Nunca estudei pra saber isso.
- Nem eu.
- Ah, então vamos parar de falar do que a gente não sabe. Prefiro tomar cerveja.
- É, das marcas delas eu entendo. E vamos falar de política agora.
- Rá!
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Samantha Abreu

terça-feira, 21 de abril de 2009

Câmbio Negro

foto de ellen von unwerth
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Foi tudo por dinheiro. Meu Deus, o que a gente não faz por dinheiro?
Já fiz de tudo nessa vida, nunca fui mulher de negar serviço. Já fui faxineira, secretária, manicura e nunca me envergonhei de nada não. Mas dessa vez foi demais. O moço chegou e disse que eu tinha o tal perfil: rosto marcado de mulher sofrida e guerreira. E eu ia ter cara de quê com essa desgraça de vida? Ficou olhando pra mim por mais de meia hora, de cima abaixo, analisando e pensando no que faria comigo. E eu sem saber do que se tratava. Mas ele foi esperto, falou logo de valores antes de tarefas.
E eu aqui, nessa miséria, matando um leão por dia pra dar de comer a esses meninos, vou lá negar dinheiro? Era mais do que eu ganhava em quase um ano! Enquanto ele falava, eu já pensava na reforma aqui de casa, um puxadinho no fundo, uma área de serviço... eu nem prestava devida atenção às explicações do moço. Concordei, fosse o que fosse.
Soube, depois, que era coisa de artista, peça de teatro, algo assim. Quando fui aos ensaios, tinha até a tal da Maria Bethânia. O lugar era tão grande que tremi de medo de assombração. Ela cantava: ‘quem me pariu foi o ventre de um navio, quem me ouviu foi o vento vazio...’. Lembrei de tanta coisa enquanto aquela voz fazia eco, que sentia calafrios de tristeza e melancolia. Aí, o moço me explicou que eu seria uma negra trazida em um navio negreiro. Mas, gente, eu nunca andei de navio! Fingi que entendia enquanto ele falava de cenas, de atos e de milhões de coisas que eu jamais tinha ouvido. Minha vontade era de sair correndo de lá.
O negócio é que eu seria uma negra transportada em um navio, que optaria pela alegria do samba e da alfabetização. Tinha uma parte em que eu tinha que cantar assim: ‘Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas... ’.
Ah, quer saber, larguei tudo e fui embora. Como é que é? Eu ia ter que fingir a alegria de uma negra dentro de um navio negreiro? Isso já era demais. Sei bem tudo o que minha raça sofreu. Agüentar fingimento enquanto um mundarel de gente me assistia com cara de encanto pela desgraça dos outros? Era isso que ele queria que fizesse: mostrasse a alegria de ser desgraçada na vida.
Já representei quase tudo na vida, mas com hipocrisia não!
E, pior ainda, eu ia ter que tirar a roupa.
Ah moço, a única roupa que tiro é a do varal!
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Samantha Abreu

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Tem Maré que Derrama

foto de Ellen von Unwerth
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Eu nunca acreditei no tal do azar-marcado, mas tem coisas que acontecem na vida pra fazer a gente se perguntar por que cargas d’água somos escolhidos pra pagar mico. Tanta gente no mundo... por que logo eu?

Eu já tava numa maré pesada: sem grana, tintura com cinco dedos de raiz, com cpf em todos os órgãos de siglas negativadoras, depilação em atraso, cumprindo aviso-prévio, tinha levado um pé na bunda do meu melhor fuck-friend de todos os tempos, meus pais se separando depois de velhos, carro na oficina, pendurada na faculdade e mais algumas barbaridades que não me convém comentar. Aí, o que eu, nessa situação, poderia esperar de pior? Mas é como dizem: nada é tão ruim que não possa piorar. Eu era sapata e não sabia. Não que eu tenha algo contra elas, muito pelo contrário. Pra ser mais clara, o problema não era ser sapata, a merda era ser sapata, namorada de um gay, e não saber. Podia ser tanta coisa... corna, gordinha, pobre, morar longe, burra. Mas lésbica namorada de um gay? E sem saber?

Eu tinha um caso multicores com o Leo há alguns meses e era delicioso. Toda a liberdade do mundo acompanhada de toda a diversão e prazer do universo. Mas como tudo o que bom acaba, acabou. Foi então que eu, desertada e querendo me apegar a qualquer sinal de mimo a mim dispensado, conheci o Edu.
Edu era ótimo. Divertido, enturmado, carinhoso. Só tinha um problema: não era o que se pode dizer de um cara ‘chegado na coisa’, só que de várias formas me saciava a necessidade de carinho e atenção na qual eu me encontrava, além de me inflar o ego como ninguém. Batata! Não demorou e eu me apeguei.
Ninguém se conforma, até hoje, com minha cegueira. Nem eu. O fato é que o Edu era um pouco, talvez mais que um pouco, afeminado. Adorava ir ao shopping e passava horas comigo vendo vitrines, opinando modelos, sugerindo cores. Companheiríssimo, mas eu queria sexo, simples assim. E Edu dava carinho. Eu queria sexo, Edu dava atenção. Eu queria sexo, Edu dava presente.
Um dia, cheguei da faculdade vi o carro do Edu e notei a casa aberta, luzes acesas, barulhos. Quando entrei, ele estava usando meu vestido de festa, se maquiando no espelho do banheiro. Tive uma crise incontrolável de riso-pânico. Riso pânico é o pior tipo de riso que existe, é daqueles desesperadores, que você não quer parar de rir pra não começar a chorar. Botei Edu pra correr.
Só então, depois de alguns meses, eu soube que Edu já tomava até hormônio pra crescer peitinho, crescer cabelo e que queria ser mulher. Mas ele sempre deixava claro que gostava era de uma buceta. Queria ser mulher, mas gostava de mulher. Ou seja, era um homem querendo ser lésbica. E eu, a namorada.
Já não sei mais quantos tipos de piada ouvi com meu nome, quantas vezes contaram essa história nas mesas de bar e quantas gracinhas ainda ouvirei pela vida afora. Só aprendi que por mais negra que seja uma nuvem, ela ainda pode ter a chuva ácida.
Edu, hoje, é uma quase-mulher e se chama Julia. Depila a barba e o peito, mas ainda garante que gosta de mulher. Há quem acredite, só que propaganda falsa ele não faz mais.


Samantha Abreu